segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como preparar sermões Expositivos.

PREGAÇÃO EXPOSITIVA

Por George O. Wood

O que É Pregação Expositiva?

Pregação expositiva é tomar um trecho das Escrituras (um versículo, um parágrafo, um capítulo, um livro) e responder a duas perguntas: (1) O que disse? e: (2) O que diz? Ao responder a essas duas perguntas, o assunto, os pontos principais e o subpontos da mensagem são regidos pelo próprio texto. Na pregação temática, o pregador pode escolher seu esboço. Na pregação textual, os pontos principais são regidos pelo texto, e o pregador pode colocar entre os pontos o que quer se sinta levado a colocar. Entretanto, na pregação expositiva, o texto rege inteiramente o conteúdo da mensagem: não se tem liberdade de buscar ou escolher o que se quer enfatizar ou deixar passar. Vamos considerar as duas perguntas acima. Para pregar expositivamente, devo responder a ambas.

A primeira pergunta – “O que disse?” – envolve exegese e hermenêutica. Quero entender da melhor maneira possível o que cada palavra ou frase significativa para o escritor bíblico, para o povo de Deus a quem essa palavra foi primeiramente dirigida. Para isso, sirvo-me de dicionários, léxicos, concordâncias, comentários bíblicos, ou seja, qualquer coisa que me chegue às mãos para melhor entender o texto. Na grande maioria das vezes queremos passar por alto a difícil tarefa de realmente compreender a Escritura, a fim de imediatamente passarmos a aplicação. Essa é uma das razões por que certos trechos difíceis das Escrituras (como Levítico) são frequentemente deixados de lado.

Entretanto, nenhum sermão está completo se tivermos respondido apenas a primeira pergunta. Também devemos considerar: “O que diz?” Em outras palavras, tenho de passar da exegese para a aplicação. De que forma essa clássica Palavra viva se relaciona com as necessidades contemporâneas das pessoas a quem pregarei? Pregar sempre implica em se ter um pé plantado firmemente na exegese e o outro na aplicação. Os sermões serão secos como o deserto se forem somente exegéticos. A exegese apresenta o que a Escritura disse para as pessoas da época em que foi escrita; a aplicação mostra o que ela diz para as pessoas dos dias de hoje.

Não poucas vezes, uma congregação foi colocada para dormir por um sermão que nunca foi bem-sucedido em ressaltar o imediatismo das experiências cotidianas. O sermão torna-se em lição de história muito árida e tediosa. Entretanto, sermões que negligenciam a exegese em favor da aplicação eventualmente produzirão uma congregação biblicamente analfabeta, presa fácil dos falsos ventos de doutrina e dos vendavais da adversidade satânica. Em geral, se um sermão deixa de despertar interesse, inspiração ou desafio, é porque uma ou ambas as perguntas não foram devidamente respondidas pelo pregador. Philips Brooks, o grande pregador americano de outra geração, assim se expressou, com muita propriedade: “Nenhuma exortação para uma vida melhor, que não esteja fundamentada em alguma verdade tão profunda como a eternidade, pode atingir e prender a consciência [grifo nosso]”.

Paulo ordenou que Timóteo conservasse “o modelo das sãs palavras” (2Tm 1.13). Essencialmente, Paulo estava dizendo que seguia um sistema de ensino, que seus métodos de pregação e ensino não consistiam de porções de informações isoladas e exortações espirituais dispersas. Qualquer pessoa só tem de ler os escritos de Paulo para detectar o quanto são bem-ordenados. No estudo bíblico, o crente não mostrará sensatez se optar pelo método do “pula-pula”. Se, um dia, o crente lê um capítulo de Romanos, no outro, passa para um trecho de Apocalipse e, no seguinte, vai para o livro de Êxodo, permanecendo nesse procedimento aleatório por longos períodos de tempo, realmente não estará tirando nenhum proveito. Imagine estudar um manual de língua estrangeira, de história ou de ciência nesse padrão ametódico! O estudo da Bíblia não dispensa os mesmos princípios aplicados ao estudo de outros assuntos.

Se os comentários acima são verdadeiros no que tange ao estudo pessoal, também se aplicam à pregação. A minha pregação rege a exposição sistemática da verdade?

Estou produzindo um modelo das sãs palavras? O que aconteceria se um operário da construção civil tentasse construir uma casa assentando os tijolos em lugares desconexos, em vez de ajuntá-los adequadamente? Com muita frequência nossos sermões, semana após semana, são tijolos sem nenhuma relação uns com os outros. Não deveria haver uma relação entre os sermões da semana passada e os desta? Ou os do mês passado e os deste? Ou mesmo os dos últimos anos e os deste?

Alguns acham que seguir um plano de sermões, no qual o pregador leva semanas ou meses para sequencialmente levar o rebanho através de um livro da Bíblia, está na verdade inibindo o Espírito Santo. “Você não está descartando a direção do Espírito?” perguntam eles. Não, de forma alguma, a menos que sua visão do Espírito signifique que tudo o que Ele faz deva ser instantaneamente, espontâneo. Eu creio que o Espírito Santo pode me dar direção para uma série completa de estudos tão facilmente quanto para uma única mensagem. Mas nunca devo ser inflexível. Se, no meio de uma série de estudos, o Espírito Santo colocar em meu coração alguma palavra especial, não hesito em interromper a série.

Como Fazer Sermões Expositivos

Agora vem a questão crítica. Você quer pregar sermões expositivos. Mas como fazê-los? Deixe-me levá-lo ao longo desse processo, utilizando uma das passagens mais familiares da Bíblia: Mateus 28.18-20. De fato, esse texto é tão familiar, que muitos nunca chegam a pregar sobre ele.

[...] Exige-se que os pregadores expositivos incluam todas as palavras do texto em seus sermões. Mateus 28.18-20 concentra-se em assuntos mais inclusivos do que no fato de “ir” ou para onde devemos ir.
Lembra-se da primeira pergunta sobre os preparativos de uma mensagem expositiva? O que o texto disse? Para responder a essa pergunta devemos fazer boa exegese. Contudo, não comece sua exegese correndo comentários. O pregador expositivo deve primeiro estudar o texto apenas com a Bíblia na mão; sem comentários ou ferramentas de ajuda de qualquer tipo.

É importante que você comece a formar uma opinião sobre a passagem. O que o texto está dizendo? De que forma o Espírito Santo pode ajudá-lo a entender o texto novo? Que partes parecem chamar mais sua atenção? O que você não compreende? Onde estão os substantivos? Os verbos? Os adjetivos? Os advérbios? Qual o pensamento principal da passagem? Quais os subtemas? Não custa escrever sua própria paráfrase do texto.

[...] Durante esse embate inicial e direto entre você e o texto, comece a se perguntar: Como esboçarei estes versículos? Que título parece mais apropriado?

Passe pelo menos uma hora sozinho com o texto antes de consultar seus recursos de estudo bíblico. Se, é claro, você sabe o grego ou hebraico, gaste esse tempo no texto original obtendo as nuanças da linguagem bíblica. Você não deve começar a examinar os comentários até que o próprio texto fique incrustado em seu espírito.

Depois, sirva-se dos recursos: dicionários, concordância, tradução interlinear, paráfrases e outras versões, estudos por palavras, comentários bíblicos. Não permita que seu repertório de comentário seja escasso. Alguns cometem o erro de confiar quase exclusivamente em um ou dois comentários, e seus sermões passam a ser apenas um rearranjo, uma nova apresentação do que aquele estudioso disse. Nunca tento usar menos do que sete ou oito comentários sobre qualquer texto. Isso assegura que estou tirando conclusões de múltiplos pontos de vista, alguns dos quais em nada me ajudarão, mas preciso da multiplicidade de informações para corretamente compreender o texto. Tenho de resistir ao impulso de passar depressa para a aplicação do texto, sem primeiro me envolver em todo o processo de exame.

À medida que você explora cuidadosamente a mina do texto de Mateus 28.18-20, começa a notar os temas principais. Eles se sobressaem. No versículo 18, Jesus faz uma declaração muito surpreendente. Nos versículos 19 e 20a, dá uma ordem. E na última frase do versículo 20, faz uma promessa.

Portanto, um sermão expositivo será desenvolvido nessa estrutura, dentro do próprio texto. Lembre-se: é sempre o próprio texto que deve reger o esboço. A pregação expositiva não dá licença para o pregador forçar ideias no texto. Deve-se permitir que o texto fale por si mesmo. Quando você se concentrar nos aspectos exegéticos do texto, comece a notar algumas coisas que se destacam, como por exemplo, a palavra “todo”. No texto da versão ARA [Almeida Revista Atualizada], a palavra “todo” (em suas declinações) ocorre quatro vezes: “toda a autoridade [ou poder]“, “todas as nações”, “todas as coisas” e “todos dos dias”. Bem de acordo com o texto grego subjacente, onde o vocábulo “todo” (da raiz grega pas) ocorre quatro vezes: “toda a autoridade”, “todas as nações”, “todas as coisas” e “todos os dias”. Quando percebi isso, disse comigo mesmo: Esta é repetição importante. Isto precisa ser incluído na mensagem. Mas como?

Minha exegese também me leva a focalizar nos conectivos. Primeiro, Jesus proclama ter autoridade. Depois, emite uma ordem. E, no fim, faz uma promessa. Tudo isso não está relacionado? Sua autoridade não serve de escora para a ordem? Jesus nos enviaria para uma missão que não tivesse esperança de sucesso? Por conseguinte, nossa responsabilidade não está associada ao sucesso de sua própria missão? A menos que Ele tenha autoridade, não temos responsabilidade. Mas somos enviados a fazer sua obra por nossa conta? Não! Com a comissão, temos também a garantia: Ele estará conosco.

Percebe o que estamos fazendo? Estamos trabalhando com os conectivos. Às vezes, um sermão contém um esboço simples: pontos um, dois e três. Não obstante, o pregador nunca conecta os pontos. Se temos o ponto um, de que maneira se relaciona com o ponto dois? E com o ponto três? Você quase sempre pode dizer está conectando os pontos, se está silenciosamente inserindo entre eles as palavras “portanto” ou “porque”. Por exemplo, nesse texto, Jesus tem autoridade. Portanto, temos responsabilidade quanto a essa autoridade. Porque temos responsabilidade, necessitamos de sua presença, e devemos cumprir o que mandou fazer.

Procure seguir o fluxo lógico que o próprio texto proporciona. Quando Deus fala, como apresentado na Bíblia, Ele não gagueja. As palavras não são dadas em ordem aleatória, mas na seqüência certa. Há um propósito e método na revelação divina. Busque-os e proclame-os!

Ainda estamos trabalhando na exegese: “O que o texto disse?” Em meus estudos, comecei a notar que quatro verbos dominam o meio de Mateus 28.18-20. Em português, na versão ARA, dois dos verbos estão no imperativo, ou seja, são ordens: “ide” e “fazei discípulos”. E os outros dois verbos estão no gerúndio: “batizando” e “ensinando”. Em princípio, isso nada significa para o desenvolvimento do sermão; simplesmente tomo nota.

Quando consulto o texto grego, descubro que apenas um verbo está no imperativo: “fazei discípulos”. Os outros três estão todos no gerúndio: “indo” (ou quando fordes” ou “tendo ido”, “batizando” e “ensinando”) [Aqui, o Novo Testamento Interlinear é imprescindível para quem consegue pelo menos consultar o dicionário grego e uma chave linguística grega]. Não tenho ideia do que planejo fazer com essa descoberta. Terei de pensar um pouco sobre isso e trabalhar mais extensamente nos comentários. Você frequentemente experimentará esse mesmo fenômeno ao preparar seus sermões.

Durante todo o tempo em que estou estudando, estou tomando notas. Entrementes, só tenho páginas cheias de anotações. Meu estudo exegético está concluído. Acho que atingi um entendimento positivamente acurado do significado das palavras. Agora chegou o momento de desenvolver o sermão e começar a responder a segunda pergunta: “O que o texto diz?”

O que o texto diz?

Como faço para que esses versículos saltem da página aos corações das pessoas a quem ministro? Isso é obra do Espírito Santo e também minha responsabilidade. Tal esforço não terá êxito sem oração. Por conseguinte, fundamental em todo o estudo é o ato e a atitude de oração: “Senhor, ensina-me primeiro o que esta passagem está dizendo para mim, e depois abre-a aos corações do povo”.

[...] Portanto, as três coisas que requerem mais trabalho no preparo do sermão, depois da exegese, são: o título e a introdução da mensagem [...], o assunto [...] e a conclusão [...].

Os pregadores expositivos diferem em qual dos itens acima se ocupam primeiro no processo de preparação do sermão. Alguns, como os advogados, preferem começar com o rascunho do sumário ou da conclusão. Outros dão as primeiras atenções à introdução, tratando-a como a nascente do fluxo do sermão, acreditando que o restante da mensagem seguirá o canal iniciado pelas palavras de abertura. Quase sempre, me concentro primeiro na formação do assunto e no esboço.

[...] Dentro desse processo ou em sua conclusão, procuro cristalizar a mensagem em um título apropriado. Por exemplo, é difícil dar um título a Mateus 28.18-20 que não seja “A Grande Comissão”. Esse é o nome dado ao longo do curso da história cristã. Talvez, para causar impressão, pudesse ser tentado uma variação: “A Grande Co-Missão”. Você pode escolher um título mais criativo ou contemporâneo. Entretanto, evite títulos que prometam mais do que possam cumprir, ou que induzam ao erro, ou que desvirtuem o conteúdo do texto.

Empregando o título histórico, passo a imaginar: O que há de tão grande acerca da Grande Comissão? Em outras palavras, por que foi inserida a palavra “grande”? O termo “grande” não aparece no texto em si. Quanto mais refletia nessa questão (e a preparação de um bom sermão exige que você faça considerável oração, meditação e reflexão), mais percebia que o próprio texto a respondia. A grande comissão é grande porque contém uma grande proclamação, uma grande responsabilidade e uma grande garantia! E aí está: tanto o assunto quanto o esboço apresentados em uma única sentença. Posso usá-la durante todo o sermão!

Na introdução, posso perguntar: “Por que chamamos essas palavras de Jesus de ‘A Grande Comissão’?” Em seguida, a parte central do sermão responde à pergunta. Primeiro, porque faz uma grande proclamação: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (ARA). Segundo, porque acarreta uma grande responsabilidade: “Fazei discípulos” (ARA). E, terceiro, porque nos dá uma grande garantia: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (ARA). Na conclusão, retorno a estes temas. Você já aceitou a proclamação de Jesus? Já agiu de acordo com a responsabilidade dada? Está plenamente certo da garantia que Ele nos prometeu?


Para mim, o título, o assunto e a conclusão servem mais ou menos como as figuras de um livro de colorir. Não posso pintar as gravuras, a menos que veja os seus contornos. De maneira cuidadosa e metódica, começo a rabiscar minhas notas para a mensagem. No topo da página, escrevo o título: “A Grande Comissão”.

Depois, vem um parágrafo chamado “Introdução”. Na pregação expositiva, o objetivo ordinário de todas as introduções é pôr o texto nas pessoas e as pessoas no texto. Uma maneira simples de resumir uma introdução à Grande Comissão é observar que, no Evangelho de Mateus, essas são as últimas palavras de Jesus ditas aos discípulos, sendo também suas últimas palavras para nós. Foi essa a mensagem que comissionou os discípulos, e é também a nossa. Se as últimas palavras pronunciadas por um ente querido antes de morrer são importantes, quanto mais as últimas palavras do Cristo ressurreto!

A partir disso, a primeira ênfase principal se desdobra: “A grande proclamação”. Se você fez o trabalho exegético no contexto maior do Evangelho de Mateus, será instantaneamente levado a Mateus 4.8-10, onde Jesus, no início do seu ministério, rejeitou a oferta do diabo de “todos os reinos do mundo e a glória deles”. Você fará ver que Jesus, no fim do seu ministério, não poderia ter feito tal proclamação se no começo tivesse cedido à tentação do diabo. A mesma relação se dá em nossas vidas. O poder com Deus vem pelo caminho da obediência, resistindo às tentações do inimigo [esse exemplo demonstra-nos a aplicação pessoal do texto].

Você também quererá enfatizar a proclamação universal de Jesus. Sua autoridade se estende a todo céu (algo que o diabo não pode oferecer, visto que ele não está no céu e não tem autoridade lá) e à terra. Jesus está nos dizendo que naquele dia não teremos de prestar contas a Maomé, Buda, Confúncio ou qualquer outra pessoa. É a Jesus que daremos conta.

Eu não poderia ter alcançado esse discernimento sem ter relacionado o texto imediato a todo o texto. A pregação expositiva requer que o pregador desenvolva a passagem dentro do seu contexto: imediato (capítulo e livro da Bíblia) e geral (a totalidade das Escrituras). Somente quando fiz o trabalho de concordância com a palavra “todo” no Evangelho de Mateus, foi que me ocorreu a observação de que deveria relacionar Mateus 4.8,9 com Mateus 28.18-20. Semelhantemente, continue com o trabalho de relacionar Escritura a Escritura.

[...] O Sermão rapidamente chega a uma conclusão. Confiando na ação do Espírito Santo, procure levar as pessoas a tomarem uma decisão. Já aceitaram a proclamação de Jesus? Já admitiram a responsabilidade que Ele mesmo deu? Vivem na garantia que Ele fez? [...] É o momento em que elas podem responder à Palavra pregada, entregando-se a ela.

Meu propósito em levá-lo através da pregação de Mateus 28.18-20 é simplesmente dar-lhe uma maquete de como pregar expositivamente. Os princípios e discernimentos apresentados são aplicáveis a qualquer texto das Escrituras. Não fique surpreso se, quando começar a pregar expositivamente, venha enfrentar dificuldades. Hoje, não desejaria pregar novamente alguns dos meus primeiros sermões expositivos. Como em qualquer outra disciplina, a pregação expositiva vem mais prontamente com a prática. Mas os dividendos valem a pena!

Não há nada que influa mais dramaticamente no seu crescimento espiritual do que a concentração constante na pregação expositiva. Você receberá muito mais do que poderá dar. E as pessoas a quem você prega terão um amadurecimento espiritual mais rápido, pois em vez de ideias humanas você estará colocando a Palavra de Deus em suas vidas.